Tendências nos mercados de Títulos Corporativos no Japão (14/11/2023)
Títulos corporativos são instrumentos financeiros emitidos por empresas para captar recursos no mercado. Ao adquirir esses títulos, os investidores efetivamente emprestam dinheiro à empresa emissora. Em troca, recebem juros periódicos e, ao final do prazo, o valor principal é devolvido. No Japão, os yields dos títulos corporativos aumentaram vertiginosamente desde meados do ano passado, tornando mais caro para as empresas utilizarem desse instrumento financeiro para financiar suas atividades. Mas se o Japão utiliza do YCC justamente para estimular a demanda agregada e "driblar" seus imbróglios de uma demanda historicamente fraca, como isso aconteceu?
A resposta para essa pergunta é multifatorial, uma vez que em seu âmago, os títulos corporativos tiveram seus yields aumentados por algumas condições tanto do mercado japonês, quanto do exterior. A partir da consecução de diversos fatores nos horizontes de evento que falarei a seguir, os JGBs (Japanese Government Bonds), que é o principal "benchmark" para todas as taxas existentes no mercado financeiro japonês, tiveram seus juros precificados para cima, tanto no mercado primário, que se traduz pelas expectativas dos agentes de mercado das condições acomodatícias futuras da economia japonesa e seu risco de crédito subjacente (risco soberano), quanto no mercado secundário, através do fenômeno de marcação a mercado, com a debandada de muitos investidores para os títulos de dívida americanos, que estavam pagando juros de quase 5% ao ano, pressionando os juros para cima, uma vez que a oferta de JGBs superava a demanda por eles.
Agora, os títulos corporativos, conceitualmente, assim como os JGBs são precificados a partir de fatores endógenos e exógenos que tratarei a seguir:
1) Fatores específicos do emitente (endógenos), que refletem o risco de crédito do emissor e sua posição financeira, além de sua classificação de crédito por alguma agência de rating, além disso, também são levados em conta as condições de emissão desses títulos, como o vencimento e cláusulas de resgate. Sempre que as condições forem menos favoráveis ao credor, o prêmio de risco, isto é, a rentabilidade adicional desse título em comparação a um outro título com baixo risco, é maior.
2) Fatores comuns que refletem as condições atuais do mercado, utilizando taxas que servem de "benchmark" para as situações precificadas pelo mercado em tempo real, através de seus agentes, que sinalizam suas expectativas a partir de sinais de preço. Os juros futuros, que se materializam através da precificação de títulos públicos, juntamente com as condições acomodatícias de liquidez do mercado, como a taxa interbancária, ou a taxa de depósito, como uma infinidade de taxas que podem ser incorporadas ao contrato. Mais uma vez, quanto mais adversa a situação econômica do mercado nacional ou internacional, maior será a taxa a ser incorporada.
O aumento dos yields de títulos corporativos por fatores exógenos, ou seja, exteriores das condições financeiras da instituição foram os seguintes:
1) Aumento na demanda por capital de giro devido ao aumento no preço das commodities, principalmente as energéticas: Uma das razões para o aumento dos juros dos títulos corporativos fazem parte do fenômeno da necessidade imediata das empresas de demanda por capital de giro em resposta ao aumento do preço das commodities, desencadeada pela interrupção da cadeia global de suprimentos após a invasão da Rússia à Ucrânia no primeiro semestre do ano passado. No geral, a deterioração financeira que as empresas vinham passando com a demanda reprimida pelo lockdown da Covid-19, principalmente as indústrias, já vinha pesando na precificação de risco de crédito, que se intensificou mais ainda quando os insumos se encareceram. Além disso, com a emissão de muitos títulos pelas empresas, esse excedente se amalgamou com a maior parte dos investidores cautelosos a este tipo de instrumento financeiro fez os yields subirem ainda mais através da marcação a mercado.
2) Efeitos colaterais do aperto monetário nos mercados financeiros estrangeiros: No ano passado, os bancos centrais de muitos países começaram a elevar as suas taxas de juros e estabelecer políticas monetárias contracionistas. Nos Estados Unidos, por conta da resiliência da economia, os juros futuros aumentaram, com o vislumbre de um aumento marginal do Federal Reserve. Como os mercados financeiros estão intrinsecamente interligados, com taxas de swap e controles de liquidez através de bancos centrais diferentes, o aumento dos juros futuros americanos pressionaram os juros dos JGBs para cima. Com os investidores japoneses vendendo JGBs para comprar "Bonds", o excedente de oferta de JGBs no mercado usou ainda mais os juros para cima. O BoJ necessitou intervir praticando operações de empréstimo colateralizadas e compras frequentes através do YCC para tentar controlar essa evasão.
3) Uma diminuição no grau de funcionalidade (eficácia) do mercado de títulos de JGB: Por fim, o aumento dos juros pelos bancos centrais estrangeiros aliado com a pujança da inflação doméstica exerceram uma pressão significativa sobre as taxas de juros de longo prazo no Japão. Isso ocorreu pelo fato dos participantes dos leilões primários de JGBs exigirem rendimentos mais altos, uma vez que uma taxa baixa demais não atrairia compradores e causaria uma fuga de capital massiva, além de abalar o financiamento direto do governo japonês; além disso, os participantes dos leilões primários de JGBs, visando manter parte de seu poder de compra, precificaram juros mais altos através dos mesmos leilões, exigindo taxas maiores. Por isso, o BoJ necessitou adaptar as políticas do seu YCC para atender as necessidades das instituições financeiras participantes do mercado primário, que são, no fim das contas, quem financia o excedente das despesas que o governo japonês não consegue cobrir com a arrecadação de impostos. Abrindo mão da meta, que era do JGB de 10 anos flutuar em torno de 0,25%, o BoJ estabeleceu uma meta de 0,5%, dentro de uma banda que vai de 0% a 1%. Recentemente, mesmo com o BoJ realizando compras regulares de JGBs de 10 anos pela taxa de 0,5% nos leilões, essa taxa se encontra por volta de 0,7%.
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